Crônicas

Uma história familiar da punheta

Por bruno bandido

Oswald de Andrade se denominou o maior onanista do seu tempo. Escreveu isso
se referindo à punheta, é claro, típica bobagem que punheteiros pedantes cometem.
Punheteiro que se preze não vem coessa frescura de onanismo. É punheta mesmo. Por
sinal – embora fosse homem e supostamente tocasse uma de vez em quando – não há
relato sobre bronhas de Onan na bíblia. Gênesis só mostra que o camarada se aproveitou
do bom e velho ‘gozar fora’ pra não engravidar a viúva do irmão.

Então, velho Oswald, deixemos a ironia modernista-masturbatória de lado pra concordar
que punheta, sim, é um negócio antropofágico pra burro.

Meu avô, por exemplo, se masturbava assistindo Xena, a princesa guerreira. Também
intercalava com programas de auditórios nordestinos cheios de dançarinas rampeiras
buscadas a dedo via antena parabólica. Quando alguém entrava na sala, ele subia as
calças rápido e comentava sobre a fraca programação da tv brasileira fingindo não ter
sido flagrado. Eu tava na puberdade quando morei em sua casa e isso me ajudava a
entendê-lo (mesmo que Lucy Lawless com poucas roupas correndo na floresta já fosse
motivo suficiente pra qualquer compreensão). Uma vez meu tio comentou comigo sobre
o fato de sempre entrar em casa e ter que ver seu pai subindo a barra das calças. Ele
levou na brincadeira, ‘o pau do meu pai’, mas, ao descobrir que não era apenas eu que o
flagrava, fiquei imaginando a coitada da minha avó tendo que lidar com isso.

Por compaixão coa velha, comecei a sentir repugnância dele. Um nojo quase hipócrita,
sendo que eu me masturbava inúmeras vezes ao dia. Na infância, inclusive, houve uma
vez em que dormi na mesma cama de minha vó e lembro de bronhar sorrateiramente
embaixo do lençol depois que ela pegou no sono de costas pra mim. Não tinha muita
relação com ela estar na cama, era só mais uma ocasião em que eu me encontrava duro, pensava ‘por que não?’, fechava os olhos e construía minha própria antropofagia. Ainda assim, o nojo seguia no mesmo ritmo de minhas masturbações – geralmente no banheiro com porta trancada. Tenho que admitir que embaixo daquele teto havia um homem menos fresco do que eu. E, na verdade, esperava pelo dia em que o velho não subisse mais a barra das calças e seguisse mandando ver na Xena enquanto a família transitava pela casa. O nojo morreria e ele seria um ídolo, mais uma aberração paternal que eu transformaria em mito.

Falando em paternidade e seguindo na punheta, podemos dar um pulo pra alguns
anos depois quando meu avô já havia morrido, eu já havia saído do interior e morava
com minha namorada em Porto Alegre. Minha mãe sofreu um problema no coração
e teve que ser transferida para a UTI de um hospital da cidade. Ofereci a meu pai o
sofá da nossa quitinete durante a primeira madrugada em que não o deixaram ficar nas
dependências hospitalares. Letícia preparou macarrão e comprei três garrafas de vinho
bagaceiro que bebemos durante o jantar.

O vizinho tinha nos oferecido um gato da sua tv a cabo por cinquenta reais e a
gente tava com todos canais liberados. Minhas trepadas com Letícia eram boas pra burro, mesmo assim eu fazia uso dos canais pornográficos quando tava sozinho.
Punheta e sexo não se excluem nem um pouco e, na verdade, são tristes de qualquer
forma – pelo menos pra mim – profundamente tristes depois de gozar.

Naquela noite ficamos vendo futebol. Letícia dormiu sentada e eu fui escrever alguma
coisa de trabalho no computador. Fiquei de costas pro sofá e pra tv. Meu pai seguiu assistindo ao jogo. Escutei o seu final e o velho começou a passar os canais, escutei
gemidos quando passou pelos pornográficos e de repente o volume da tv desapareceu.
Olhei pra trás e ele ainda tava sentado com o controle na mão, passando os canais. Segui tentando escrever. Eu tinha que acabar aquele texto pra entregar no dia seguinte. Eu tinha minha mãe numa UTI e, logo mais, teria meu pai se masturbando com o Sexy Hot no mute ao lado de minha namorada cochilante. Caramba, ele era como meu avô, tinha a ilusão fajuta de que ninguém perceberia isso – um tesão doentio, de porta aberta.

Por várias vezes me peguei imaginando se Letícia tinha percebido. Se não teria
despertado por uns instantes, visto meu velho mandando ver e fingido seguir dormindo
pra evitar maiores constrangimentos. Era o que eu faria naquela situação. Foi o que
fiz, segui digitando e torcendo pra que ele gozasse de uma vez e mudasse a porcaria do
canal. Quando isso aconteceu, aumentou o volume e fechou as calças e foi ao banheiro.
Levei Letícia pro quarto e nos acomodamos no colchão. Ela colocou uma coxa em cima
de mim e me beijou, acariciei o meio de suas pernas e percebi que tava encharcada. A
vadia ficou excitada ao perceber a punheta do meu pai, eu pensei.

Trepamos uma foda longa naquela noite. Subi em cima dela e fiquei mexendo meu
pau lá dentro, ela lambeu meu pescoço e gozou duas vezes, não gozei nenhuma – me
joguei pro lado com o pau ainda duro e uma espécie de angústia. Deixamos de namorar
uns seis meses depois por motivos não relacionáveis aqui. Agora, enquanto escrevia
esse texto, a imaginei no sofá percebendo os movimentos do meu pai com os olhos
entreabertos, imaginei sua buceta ficando molhada, parei de digitar, abri o zíper e bati
uma punheta.

Eu não culpo meu pai e esse é um dos motivos. Aposto que ele mesmo se culpou
depois daquela gozada. Não acredito em culpa que não seja particular. Flagrei punhetas
familiares doentias como uma espécie de maldição, pegar um pai ou um avô se
masturbando é uma clara inversão a ordem natural das coisas – algo como uma mãe
enterrar o filho. Talvez por isso eu seja um grande punheteiro. Talvez por isso eu
escreva (não me considero muito um escritor, me considero um cara que escreve porque não sei o que fazer no intervalo de uma punheta e outra). Talvez por isso eu nunca tenha ficado chocado ao flagrar essas cenas. Sempre foi nojo e compreensão.

A pior delas também foi com meu avô. A mãe da minha vó teve um AVC e passou três
meses na nossa casa antes de morrer, deitada na cama de um quarto escuro. A velha se
cagava e gritava o dia todo, o quarto fedia a merda e suor e mijo, minha vó trabalhava
como uma condenada nos cuidados de sua mãe e o velho apenas reclamava – desejava
um asilo, uma ambulância, a morte, qualquer coisa que a tirasse dali. Não havia mais
conversa, tudo o que se ouvia sair de sua boca eram reclamações sobre os gritos e o
comportamento agonizante da sogra.

Um dia ele ficou sozinho com ela. Meu tio trabalhava na rua, minha vó saiu pra
comprar fraldas geriátricas e o deixou lá – assistindo Xena, a princesa guerreira em
volume estridente enquanto a bisa gritava no quarto. Eu tinha doze anos e, por motivo
de luto, minha escola liberou os alunos mais cedo. Entrei e a tv tava ligada, fiz algum
barulho proposital pra que, se ele tivesse se tocando, levantasse as calças antes de eu
poder enxergá-lo (era um costume). O sofá tava vazio e atravessei a sala em direção
ao corredor e vi o velho de pé embaixo do marco da porta do quarto da bisa. As calças
arriadas até o joelho. O pau na mão. A velha, em silêncio, assistia a punheta do meu
avô. Não tinha muita expressão no rosto – era quase o vazio, ou a morte. Ele me
percebeu, levantou as calças rápido e disse Ô, Bruno, chegou mais cedo?. Sim, um
aluno do primário morreu. Ele caminhou embaraçado de volta pra sala e aquilo foi a única coisa que eu disse.

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7 respostas em “Crônicas

  1. Pingback: clit 3 « bruno bandido

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  3. Caralho… quanto será que isso tudo influenciou sua personalidade, velho? Tem idéia?

    Difícil esse lance de “compreensão e nojo”. Embora a punheta faça parte da minha vida, esse tipo de cena não teria passado em branco – e eu jamais encararia isso como hipocrisia. Enfim… pontos de vista. Uns mais chubo outros mais algodão.

    Vou ali.

  4. “Minhas trepadas com Letícia eram boas pra burro, mesmo assim eu fazia uso dos canais pornográficos quando tava sozinho. Punheta e sexo não se excluem nem um pouco e, na verdade, são tristes de qualquer forma – pelo menos pra mim – profundamente tristes depois de gozar.”

    Me lembra pra caralho um personagem de Miller em “Câncer”, o Van Norden.

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