Contos

E ela quer fazer dos meus bagos goma de mascar

Por Bruno Bandido

Eu não tenho a mínima paciência pras velhinhas na fila do mercado. Eu ando imaginando que podia dar uns beijos na garota que tá lendo Que Loucura do Woody Allen sentada no banco da praça. Às vezes fantasio que poderia ser amante de todas as mulheres do mundo, menos das velhinhas no caixa do mercado – eu poderia ser amante das meninas que trabalham no caixa, por exemplo. Elas têm sua beleza discreta e triste e fico me perguntando onde elas vivem quando não estão ali – não as vejo caminhando pela cidade, dentro dos ônibus, lendo Woody Allen na praça ou bebendo no bar, é como se existissem apenas aguardando velhinhas com paciência forjada e cobrando minhas garrafas de Dreher em uniformes ridículos e crachás identificatórios. Mas é claro que eu não tomo a mínima providência pra que isso aconteça. Chego em casa e escrevo minhas próprias merdas no intervalo de uma punheta e outra e lembro que nunca convidei ninguém pra sair ou dançar, e nunca dancei, e que não sei assobiar e sequer amarrar direito os cadarços do meu Dal Ponte – lembro que sou um desastre com mulheres e pessoas em geral, que não me interesso pela maioria das pessoas a não ser por essas mulheres (que são pessoas que eu poderia ir pra cama e, já que não tenho muita sorte, amar). Eu amo uma garota e ela tá viajando a trabalho, ligou ontem de noite pra dizer que no seu tempo livre foi a uma sex shop em Berlim. Comprei uma caneta de gel comestível, ela disse. 
E tu quer que eu use essa porra em ti? perguntei. 
Eu também quero passar em você, é maravilhoso, passei um pouco no meu braço pra experimentar, é geladinho e aí você lambe e tem gosto de balinhas ou chiclete. Fica a maior sensação refrescante. 
Ela me conhece há um bom tempo e é como se insistisse em não me conhecer, ou fingisse que é capaz de mudar minha truculência e grossura. Ela ficou decepcionada quando eu disse que não usaria isso nem se Eva Mendes implorasse coas tetas de fora. Talvez ela ache que por algum motivo eu possa chegar perto de ser um desses caras que dançam e assobiam e amarram seus cadarços com satisfatória destreza. Talvez.
Olha, tu não vai colocar isso em mim e quando eu for lamber teu rabo não quero sentir gosto a balinhas, eu disse. 
Eu poderia lamber seu pau com gosto a chiclé. Cê vai gostar, Bandido, já falei, é mó refrescante.
Se é pra ser assim, eu prefiro que você não lamba o meu pau.
Ela disse que sentia saudades e desligou. Se ela quer mesmo chupar um pau com gosto a chiclete, provavelmente, vai encontrar um que aceite e que assobie the girl from Ipanema com perfeição melódica invejável ou qualquer coisa do tipo. Vou ficar pra trás. Sou um cara estancado nas trevas. Um filho da puta de 22 anos imaturo e senil ao mesmo tempo, que insiste em andar na direção contrária dessa vida onde mulheres têm cada vez menos pelos pubianos. Posso tentar alguma defesa, só não sei até que ponto é compreensível insistir em ser esse caipira incorruptível. Quero dizer, talvez fosse bacana eu ser um cara que não se irrita coas velhinhas do supermercado, mas não vou perder meu tempo lutando contra meus próprios moinhos de vento – as pessoas não mudam muita coisa no decorrer de suas vidas e, se resolverem não fingir ou fazer de conta, não mudam absolutamente nada.
Sigo fora de qualquer onda, como uma espécie de fantasma do meu tempo – não dou a bunda, não tomo ecstasy, não tenho tatuagens e piercings e i-phones, não frequento ‘baladas’ pavorosas com o intuito exclusivo de arranjar mulheres, só escuto rock de uns trinta anos pra trás e meu whisky é sem gelo, o que dirá Red Bull. Vivo caminhando nesse mundo maleável como se fosse um espírito desencarnado que ainda não encontrou a luz – sem ter a mínima ideia de onde ir – evitando pessoas e política e aglomerações e filas com velhinhas e evitando o bom dia dos meus vizinhos no elevador e evitando aprender a amarrar melhor os cadarços ou olhar pros dois lados da rua. Eu poderia reclamar do mundo, acontece que o maldito vai seguir girando cheio de desdém – porque essa é a dele, afinal. Apenas evito. Sou um resto procurando migalhas, um cara que se esconde da vida no canto mais escuro do bar e torce pra que quando a hemorragia interna vier ela seja rápida e rasteira. Meu suicídio é destilado. Sem pressa. As únicas coisas com que posso contar são uma garrafa de conhaque, minha alma incorruptível e minha não disposição aos antidepressivos, ou seja, meus bagos. Minhas trepadas também são caipiras, prezo por banheiros de bar, becos na penumbra, os cantos da casa e o bom e velho colchão. Uma vez minha amiga Pomba Claudia perguntou: Bandido, qual foi o lugar mais estranho em que tu já transou? 
Na cama, eu respondi.
Acho que isso diz muito sobre mim. E explica o motivo de eu não querer meus colhões com sabor tutti-fruti, ou lamber o rabo da minha garota e ficar coa sensação de que tô comendo pasta de dente. Não peço por compreensão, apenas alguma serenidade fajuta, um disco do Hound Dog Taylor e uns vídeos do Red Tube enquanto ela não chega e eu tento desfazer toda essa ideia de canetas de gel com meu humor rabugento, meus olhos tristes, meu silêncio de pau duro, minhas mãos firmes e meus bagos intactos. Talvez a ideia não saia da sua cabeça, e aí não há nada a ser feito, ela vai atrás de suas vontades e, mais uma vez, eu serei igual àquele pugilista que perdeu a luta por não dançar como Cassius Clay.

*

Parece que todos os moleques penteados pela mãe viram bêbados

Por Diego Moraes 

Fabrício
Nunca te vi por aqui.

Bráulio
Nunca o vi em todas as minhas vidas.

Fabrício
Você é espírita?             

Bráulio
Sou comediante.

Fabrício
Não gosto de comediantes.

Bráulio
Preciso escrever um romance autobiográfico para freqüentar esta joça?

Fabrício
Não gosto de desconhecidos no meu parque.

Bráulio
Não quero confusão, cara.  Só vim aqui atrás de um presente para minha noiva.

[Espantalho sacudido pela brisa. A velha senhora lagrimando na barraquinha de maçãs do amor. Garotinhas dando tchau na roda-gigante. Bráulio engatilha, respira e erra o alvo]

Fabrício
Falta pontaria.

Bráulio
Costuma encher o saco de todo cara que pinta no seu stand de tiros?

Fabrício
Só de quem desconfio.

Bráulio
Tenho cara de bandido?

Fabrício
Tenho faro pra essas coisas. Fui investigador de policia por 20 anos.

Bráulio
O que acontece se eu acertar o número 13?

Fabrício
Ganha um espelho de cadeia.

Bráulio
Evito olhar-me no espelho. Não me penteio desde 1993.

Fabrício
Cresci vendo minha mãe pentear meus irmãos.

Bráulio
Parece que todos os moleques penteados pela mãe viram bêbados.

Fabrício
Ninguém ofende minha família.

[Socos no estômago. Abre-se o mar vermelho. Gritinhos de tartaruginhas fugindo do tsunami]

Bráulio
Só queria arranjar um presentinho, velho, mas você encheu a ponto de torrar a paciência.

[Bráulio atira em Fabrício. Pula balcão e rouba ursinho de pelúcia escrito “Eu te amo”. Agora ri, entra na Belina Marrom e sai soltando fumaça na estrada]

*

Bifes Uruguaios

Por camila f

Quando a grana apertava, eu tinha que ir prum desses shows de freaks e fazer o que eu sabia de melhor: colocar um tomate grande inteiro na boca. Tem que ter muita prática prum troço desses. O tomate num pode tá maduro, porque senão ele amassa todo e perde a graça. Tem que ser um tomate verde, razoavelmente duro e ao mesmo tempo razoavelmente maleável para não ferir as bochechas. Você tem que se concentrar, encontrar um ponto pra olhar, não se distrair, pois tudo pode te ferir a qualquer momento. Sua boca não é elástica. Concentração. Pense nisso como uma conquista. E pronto. Lá está o tomate. Agora você tem que aprender a respirar com ele, não mexer a língua, pois vai acabar querendo vomitar e isso poderia ser fatal. Respire devagar, cada suspiro é vital. Levante os braços, espere a platéia aplaudir e dizer: “oooh…!”, e então, respire fundo, relaxe sua boca e vá cuspindo bem devagar aquela coisa. Vá tirando aos poucos, sem pressa, sem pressa… Limpe a boca, reverencie, eles ainda aplaudem. Jogue o tomate no lixo, pegue seu dinheiro e dê o fora. Você sempre acha que vão te pagar o suficiente pruns meses, mas nunca é assim.

*

Volto pra cidade com a minha moto aos pedaços. Lou’s me espera ainda na cama, nua como a deixei noite passada. Só um cobertor cobre seu rabo. Coloco numa caneca conhaque e fico observando ela dormir. É engraçado que uma mulher como ela tenha dado bola prum vagabundo que nem eu. Acendo um cigarro e ela acaba acordando.

– E aí, cuzão – ela diz, sentando. Olho seus peitos.
– Bom-dia, garota.
– Me dá um cigarro.

Jogo o maço prela e ela pega no ar.

– Ganhei uma grana pra gente.
– Que bom.
– Pensei na gente dar o fora uns tempos.
– Quero ir pro Uruguai. Tô na fissura dos bifes de lá.
– Pode ser. Eu curto bifes.
-Consertou aquela merda de moto?
– Ela num tava quebrada, garota.

Ela dá de ombros e levanta. Prepara um café preto pra nós dois. Fico olhando aquele rabo se movendo e dou uma apalpada quando ela me entrega a caneca. Ela dá um gritinho, mas curte quando beijo seu umbigo e desço pra sua bucetinha, lambendo por fora, mexendo minha língua. Ela dá um gemido e me agarra os cabelos e logo já tá se gozando toda em minha boca e minha calça. Lou’s parece gêiser quando goza.

*

Ponho o capacete nela e amarro nossa mochila e sua bolsa atrás daquele rabo gostoso. Ela tá empolgada e vai bebendo whisky num cantil no caminho. Ela me nega sempre que peço, diz que a moto já é ruim demais preu dirigir bêbado. As vezes ela agarra meu pau quando fica excitada e a gente para na estrada pra fuder nalgum daqueles matos. Paramos num motel durante a noite e mal dormimos, de tanto que ela me chupa e goza em jatos na minha boca. Às oito voltamos pra estrada e às 18 chegamos no Uruguai. Ela parece empolgada naquele vestido branco curto e folgado, que toda hora cai a alça. Usa minha jaqueta jeans grandalhona e de longe é a mina mais bonita que qualquer um já viu.

– Bife, eu chego aqui e só penso em bife! – ela diz agarrando minhas bolas. – Quer whisky?

– Quero – eu disse e ela me passou o cantil. – Vamos comer bife então, garota.

Cabamos num bistrô barato. Ela pediu duas fatias grossas de bife com batatas fritas e ovo e um litro de cerveja uruguaia. Ela parecia um homem comendo. Pedi o mesmo que ela e mais uma dose de whisky. Lou’s ficou animada quando a comida chegou, comia sem nem respirar e dizia que era o melhor bife da história dos bifes. Eu nunca ria com as coisas que ela dizia, embora por dentro eu sempre tivesse rindo pra caralho. Ela tinha uns olhos tristes, mas sua tristeza era quase alegre. E aquele tipo de alegria era a única que eu podia suportar.

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2 respostas em “Contos

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