Acordei quente para tirar a roupa em uma temperatura de dez graus e tomar banho em trinta
Por Adriana Gehlen
Acordei quente para tirar a roupa em uma temperatura de dez graus e tomar banho em trinta. Toalha, calcinha, meia calça, vestido, casaco, corretivo nas olheiras, batom vermelho de leve pra pintar a boca, rímel para frisar os olhos azuis coruja, um copo de leite, escovar os dentes, me olhar no espelho e sentir a energia do arrepio emergindo do meu corpo, e ir trabalhar. Logo na saída do apartamento avistei teu carro estacionado, dessa vez não te vi entrar no trabalho. Continuei andando como faço todo dia e de repente avisto um carro igual ao teu parado umas quadras depois, com o motor ligado. Não dei atenção, poderia ser qualquer um. Andei. Vi que o carro se aproximou de mim. Não dei atenção, again achei que estava contando com algo que só existia na minha mente. Andei. O carro continuou me seguindo e decidi olhar para dentro do vidro da frente que estava abaixado. Era tu me pedindo para conversarmos, pela primeira vez depois de três meses de olhares e sorrisos bobos trocados. Entrei no carro às 8:09 da manhã. Andamos algumas quadras em dois minutos de conversa, então pedi que retornasse e estacionastes o carro onde sugeri. Pediu meu número, mas não pedi o teu. Toda aquela surpresa em ser seguida me deixou formigando, no início tensa, e agora, ao visualizar teus dentes lindos e sentir o perfume de cara alguns anos mais velho que eu na sua sublime elegância, me deixou cativada. Porém, não quis ser afoita com nada e para minha surpresa tu me pediste um beijo. Tão adolescente e tão previsível. Neguei. Dei-te um abraço e sussurrei no teu ouvido que podias me beijar o pescoço se quisesse. Tua língua e lábios disseram que sim. Minha mão naturalmente repousou na tua calça e provei a tese da vontade enquanto teus dedos caminharam para dentro da minha meia-calça e delicadamente me acariciaram em adoração por sessenta segundos, tempo suficiente para eu cair na real e puxá-los de volta, dizendo que parasse, que podíamos ser vistos. Não pedi o teu número, mesmo em meio tuas falas acerca da espiritualidade querida e safada do meu rosto e boca. Talvez tenhas me interpretado mal, mesmo não me importando com o teu provável grau de julgamento provinciano, não largo a paranoia e mesmo não sendo esse o tipo de emoção diurna que costumo procurar, adorei. Se quiseres, vai me comer em todas as horas propícias dos dias que vierem, porém não tenho idade para não emoções. Tenho idade para mergulho em intimidades que requerem esforço e cores vivas em bochechas coradas, corpo, álcool e copo entrelaçando o outro. Enfim. 08:19 da manhã. Peguei minha bolsa, beijei o canto da tua boca, bati a porta do carro e fui trabalhar.
Filomena