Apresentação

Pra quem não entendeu: não, não mudamos o nome da revista. A real é que a capa da última edição foi censurada. A gente achou isso divertido. Então resolvemos usar dessa vez, personalidades que são bastante puritanas. A * por exemplo, nunca pousou nua. ** só é a favor da alegria, *** sempre foi um padre bacana, sem nenhum culto ao corpo. E a ****… bem, a ****… Já ficou claro que ela não curte dar o cu, né?

Não que a gente tenha algo a ver com isso, mas resolvemos dar pras pessoas que censuraram a gente, denunciando que nosso material era inadequado, algo que elas gostam: caricaturas de bons moços. As pessoas curtem umas mentirinhas pra personificar algum babaca.

E óbvio que íamos pôr a * na capa. Vamos dar a ela também o que ela quer: polêmica. Seu nome em vários meios etc. Então taí *, até na Clitoris você saiu.

Nessa terceira edição, além do que vocês costumam ver por aqui, temos uma nova coluna: Cinema. Espero que gostem (ou não também, não estamos muito preocupados).

Vejam aí.

Notas

qualquer filme de shakespeare com harry dean stanton

Por Adriana Brunstein

deus! lars von trier não. eu raramente evoco o nome divino pra fazer um apelo, mas nesse caso, com o perdão que me cabe por direito, eu tô gastando amém. na boa, cara, eu consegui brochar com a nicole kidman arrastando correntes e olha que eu tentei a coisa até meu pau ficar ionizado e começar a atrair pedaços de papel. ontem ela, a jackie, entrou numas de orgasmo por sufocamento e pegou no armário a gravata do meu avô. eu ri, cara. eu ri pra caralho. tava com o prendedor da maçonaria que o velho usava. e eu me lembrei daquela história do relógio de pulso no cu do avô do christopher walken e soltei um girl, you’ll be a woman soon. no melhor estilo neil diamond. então não me venha com esse papo que diamantes são os melhores amigos das mulheres. a mina começou a quebrar tudo. espalhou cacos dos meus discos como se fossem cristais de colesterol num diagnóstico de sífilis. não, cara, eu tô limpo. ela que largou um número da super interessante no meu banheiro aberta bem nessa página. ela. a maldita jackie the ripper. não dá pra ignorar que a mina tem responsa na hora de deixar rastros. mas não vou aliviar a do dinamarquês não. nem o algo de podre do reino dele. mesmo que na reconstituição dos pedaços de papel tenha aparecido a fotografia dela. agora eu tô limpando a sujeira toda e tirando coágulos do nariz. sabe o que é mais engraçado, cara? a porra da bactéria da sífilis se chama treponema pallidum.

Texto da edição

A festa nunca começou, e daí

Por Ricardo Carlaccio

Aquele cara do Shame não pode ser apenas um tarado, assim como a festa que
rola nas bocas nunca é uma festa. Aliás, pra mim o conceito de festa é um bolo de aniversário com um monte de pãozinho com carne loca e chopp aguado, embora minha nostalgia me faça lembrar de algumas coisas do tipo e essa mesma nostalgia me traia, sugerindo que tudo foi bem bacana por conta de alguns sorrisos e a alegria pueril da pivetada. Sei que se eu estivesse por lá nesse momento, não estaria à vontade, como não estava há quase 30 anos atrás, assim como nunca mais estive nos concertos de rock, embora seja admirador de um monte de banda bacana, algumas de gosto suspeito é claro, como não devia deixar de ser e que se eu falar aqui pode virar uma polêmica desnecessária, de qualquer modo, não cogito a ideia de me meter no meio de um monte de gente há um bom tempo e quando digo isso retrucam e me abraçam mendigando cumplicidade: “nós estamos ficando velhos” , assim, como se pedissem um álibi na velhice só pra suportar a própria ranzinzice. No entanto, não precisamos, ou pelo menos eu acho que seja desnecessário esse tipo de álibi numas de disfarçar uma ranzinzice inata, porque a solidão nunca vai sair do nosso pé e os rompantes da língua nunca deixarão de existir, ainda que isso apenas aumente o teor do sangue azul contido nas veias de quem caminha sozinho com seus restos de mal humor no bolso, porque até o mal humor que colecionamos anda aos farrapos, assim como as festas recheadas de bolo aguado e chopp sem graça, o mesmo chopp que bebíamos só por curiosidade ou simplesmente para suportar o excesso de sorrisos nas festinhas do bairro. De qualquer modo, isso nos permite entender aquele cara do Shame e perceber a tonalidade exata do azul que nos cabe nesse mundo. Não, ele não pode ser simplesmente um tarado, porque as festas nunca começaram.

Conto #1

A quadrilha das gostosonas

Por camila f.

Trocaram “C’mon baby light my fire” por Luiz Gonzaga. Tinha uma anã chamada Ursula andando de pônei. Ela era um travesti famoso. Eu gostava da companheira de filmes dela, a Layla, tesudinha como o diabo. Mas eu num gostava dessa história de anã, inda mais de travesti. Trocaram Doors por sanfona, tinha uns cavalos dançando quadrilha. O pessoal já tava doidão pra diabo. A fogueira queimava como meu estômago. Sentei em frente a ela, tentando me esquentar.

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Poema #1

Por Leo Curirim

amor é a transformação de um curto espaço de tempo
situado entre fumar um banza e ler um quadrinho do Crumb
o exato momento em que te vejo
deliciosamente pelada em minha cama
com uma das calmas mais conscientes possíveis
lendo mais um quadrinho sobre as experiências alucinógenas
que deram origem a esse próprio quadrinho
e as minhas próprias experiências
que te animam te excitam e me deixam
colocar mais tempo dentro do tempo lá dentro
logo depois, não nos matamos
as conversas se dão a partir do momento em que eu acendo um cigarro
e seguimos olhando pro teto e não para os olhos
não tenho cachorros para alimentar
a vida tá longe de estar fácil
não que esteja difícil
agradeço ao meu redor as pessoas que só falam merda
se meu desenho vai clareando quanto aos detalhes
na real escurece quanto ao significado
uma escolha
às vezes te deixo pelada no quarto escuro
jogo um futebol no video game com os brothers e umas cervejas
um ponto
habitualmente volto e tento agradar com um copo de água e uma massagem
mesmo sabendo que você já fez questão de colocar seu vestido novamente
logo menos entre seus lábios de morder
seus dentes brancos entre uma cara e outra de séria
minha confusão sobre suas vontades
eu já disse que não tenho cachorro
sou só eu mesmo e caixas dentro de caixas
definições de amor por escrito
jamais teríamos escutado Nina Simone
eu não falaria de rap
ficaríamos em um segredo
uma partícula pontual na história da humanidade
eu, você e a Nina Simone sabendo exatamente a mesma coisa
e pensando-a com as mesmas palavras
deixando alegorias para fracos padres e literatos:
não aguentam 2 minutos num ringue
não bebem o bastante, nem se bastam para poderem beber dignamente
não podem ser alimentados com expectativas depois da meia noite
fundações e impérios não são como uivos na estrada,
sozinhos a pé num planeta em moebius
na hora da fome, o amor também pode ser um jeito de querer
saturno por suposto tem a obrigação de existir
eu não
sou verbo inconsequente e direto
cão faminto de ruas mal iluminadas
eu nem sou mais aquele moleque
sou sono

Conto #2

Acordei quente para tirar a roupa em uma temperatura de dez graus e tomar banho em trinta

Por Adriana Gehlen

Acordei quente para tirar a roupa em uma temperatura de dez graus e tomar banho em trinta. Toalha, calcinha, meia calça, vestido, casaco, corretivo nas olheiras, batom vermelho de leve pra pintar a boca, rímel para frisar os olhos azuis coruja, um copo de leite, escovar os dentes, me olhar no espelho e sentir a energia do arrepio emergindo do meu corpo, e ir trabalhar. Logo na saída do apartamento avistei teu carro estacionado, dessa vez não te vi entrar no trabalho. Continuei andando como faço todo dia e de repente avisto um carro igual ao teu parado umas quadras depois, com o motor ligado. Não dei atenção, poderia ser qualquer um. Andei. Vi que o carro se aproximou de mim. Não dei atenção, again achei que estava contando com algo que só existia na minha mente. Andei. O carro continuou me seguindo e decidi olhar para dentro do vidro da frente que estava abaixado. Era tu me pedindo para conversarmos, pela primeira vez depois de três meses de olhares e sorrisos bobos trocados. Entrei no carro às 8:09 da manhã. Andamos algumas quadras em dois minutos de conversa, então pedi que retornasse e estacionastes o carro onde sugeri. Pediu meu número, mas não pedi o teu. Toda aquela surpresa em ser seguida me deixou formigando, no início tensa, e agora, ao visualizar teus dentes lindos e sentir o perfume de cara alguns anos mais velho que eu na sua sublime elegância, me deixou cativada. Porém, não quis ser afoita com nada e para minha surpresa tu me pediste um beijo. Tão adolescente e tão previsível. Neguei. Dei-te um abraço e sussurrei no teu ouvido que podias me beijar o pescoço se quisesse. Tua língua e lábios disseram que sim. Minha mão naturalmente repousou na tua calça e provei a tese da vontade enquanto teus dedos caminharam para dentro da minha meia-calça e delicadamente me acariciaram em adoração por sessenta segundos, tempo suficiente para eu cair na real e puxá-los de volta, dizendo que parasse, que podíamos ser vistos. Não pedi o teu número, mesmo em meio tuas falas acerca da espiritualidade querida e safada do meu rosto e boca. Talvez tenhas me interpretado mal, mesmo não me importando com o teu provável grau de julgamento provinciano, não largo a paranoia e mesmo não sendo esse o tipo de emoção diurna que costumo procurar, adorei. Se quiseres, vai me comer em todas as horas propícias dos dias que vierem, porém não tenho idade para não emoções. Tenho idade para mergulho em intimidades que requerem esforço e cores vivas em bochechas coradas, corpo, álcool e copo entrelaçando o outro. Enfim. 08:19 da manhã. Peguei minha bolsa, beijei o canto da tua boca, bati a porta do carro e fui trabalhar.

Filomena